Acordo nua e cada parte de mim sente o sabor gélido da tua
ausência a queimar em mim. Tu não sabes dormir comigo, um dia talvez te ensine.
Transformas os lençóis numa massa encapelada como o mar. Abro os olhos ainda na
vertigem da noite passada. Imagino quanto tempo poderei viver nesta onda alucinogénia,
quanto tempo pode este corpo aguentar ser dominado pelo teu. Lavo a cara,
preciso de sentir a água nos meus lábios ainda doridos, ainda a ferver. Vejo
refletidas no espelho as marcas da nossa tempestade. Formam pequenos anéis cor
de sangue entre os meus ombros, espalhadas pelo meu peito. Passo a minha mão
entre elas e percebo que ainda não consegui arrefecer. Não satisfaço o desejo
inquieto de ir procurar-te ainda dentro de mim. Prendo uma mão com a outra e
percebo que tenho de voltar para a cama. Respiro-te através do sufoco da
almofada e consigo sentir o sabor aquoso e seco da tua saliva. Desde que
habitas este quarto, percebi que o mundo pode mesmo ser onde nós quisermos e que o
meu é este. Tenho-te a ti que és como o mar e tenho o céu que vejo da janela.
Deixo que sejas a minha fonte exclusiva de alimento e que me vás nutrindo. Não
vejo os dias passar, mas vou contando as noites. Tu não sabes mas eu tenho medo
de te perder. Quando finalmente me adormeces, com o cansaço descontrolado que
me deixas no sono, a minha cabeça ainda te obriga a mergulhar nos meus sonhos.
Não me lembro do ultimo segundo em que não estiveste comigo, mesmo quando não
estas. Não sei quando me deixei embriagar neste teu jogo, só sei que quis
esquecer as regras e agora estou perdida. Volta para a cama, tenho medo de te
perder.
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