sábado, 13 de abril de 2013


Entrei no quarto e já não tinhas a luz acesa. Tinhas prometido esperar por mim e eu tinha como sempre, acreditado. A escuridão trouxe assim o desassossego e a desilusão. Fui lavar os dentes, passar água fria pela cara e deixar que as lágrimas pudessem assim correr, livres e transparentes. Entrei no quarto, despi-me e pé ante pé fui até à cama, entrando muito suavemente, evitando quase respirar. E é aí que o inesperado acontece. Tu acendes a luz e abraças-me. Tu estavas à minha espera. Entrelaço as minhas pernas nas tuas, como se a minha vida dependesse desse aperto. Tu beijas-me o pescoço e eu sinto toda a penugem do meu corpo, saudar o teu toque. Sussurras-me ao ouvido palavras e palavras e sequências de palavras e eu nada ouço. Fiquei presa algures no tempo, desde que acendeste a luz. Agarrei o teu cabelo e viu-o penetrar entre os meus dedos.
 Acordei, virei a almofada, senti uma satisfação momentânea na bochecha direita e tentei pegar no sono outra vez. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013


A primavera chegou. Não lhe sinto o cheiro, não toco nas primeiras flores nem consigo ver os novos tons do céu, mas eu sei. Hoje levantei-me e o quarto estava quente, um quente bom que não sufoca nem magoa, só paira. Senti o sol a bater forte na janela e quando dei por mim tinha o corpo colado no vidro. Que sensação boa, quase como um raio de humanidade a percorrer-me. Por míseros segundos tive vontade de ver o mundo, bater pé pela cidade, ver pessoas a sorrir, a chorar, a correr, a viver. Tão veloz como apareceu, esse sentimento desapareceu. Bebi um copo de água de um só trago e soube-me bem mesmo sabendo que guardava o pó de tantos dias passados. Voltei para a cama e reparei que os lençóis brancos estavam a ficar amarelecidos, desgastados, talvez tristes. Na tua almofada agora minha, pequenas gotas de sangue dormiam. Como símbolo de término, de batalha perdida, mas mais do que tudo de ausência magoada. Só existe um momento em que este corpo e esta alma conseguem descansar. Os dois primeiros segundos em que acordo. Esses segundos em que a nossa mente esta vazia, sem memórias, sem dor, sem amor. Ai, pudessem eles durar o resto da minha vida. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013


Hoje acordei com sede. Sede do mundo, da vida, das pessoas e de tudo o que fui. Tinha tanta sede que achei que nela poderia sufocar. Não foi suficiente para rasgar as amarras da cama. Talvez seja um sinal de desapego, talvez ainda recupere a tempo de ser mais do que aquilo que tu fizeste de mim. Talvez volte a respirar o meu ar e agarre com as duas mãos a minha própria vida. Enquanto isso não acontece afundo-me mais uma vez. Penso que talvez devesse lavar os lençóis, mas fico-me pela ideia de o fazer. A chuva continua e hoje passou o dia a bater com força na janela. Imaginei essas pequenas pedras a saltarem em queda-livre do céu, molhadas e frias. Imaginei tocar-lhes e o quão revigorante isso poderia ser. Quando sair desta cama talvez receei o toque por já o desconhecer. Às vezes aperto cada um dos meus membros, só para saber que ainda sou um corpo. Crio um nível de dor de forma a que me permita estar certa de que ainda existo. Hoje sei que é Domingo. Não ouvi a mulher do mini mercado nas suas cantorias, só daí pude ter essa informação. A campainha voltou a tocar e chegou ao ponto que a consigo ignorar de tal forma que tenho o poder de a silenciar na minha cabeça. Sinto que todos os meus mecanismos de concha se estão a fortalecer e que estou mesmo refugiada do mundo e de toda e qualquer forma de vida. Agora vou voltar ao casulo, estou a precisar de sonhar.

sábado, 30 de março de 2013


Às vezes o tempo vem e apaga tudo. Leva a dor, o ar e o mar. Outras vezes o tempo vai e deixa-nos engolir a dor, o ar e o mar. Outras vezes o tempo pára. É estranho como consegues sempre ficar depois de partir. Eu só consigo ficar, ficar, ficar. Comigo o tempo não passa só se arrasta. Não me lembro a última vez que abrir os estores. Um dia talvez deixa de saber falar, deixe de saber de que cor é o seu e me deixe apenas afogar nesta maldita cama. O meu único contato com o mundo lá fora é através do som do vento e a força com que passa como que a querer dizer-me alguma coisa. Não sei que dia da semana é, muito menos em que mês estamos. Para mim todos os dias são frios, tristes e espinhosos. A campainha ainda vai tocando mas nada acontece comigo. Não teria nada para dizer a essas pessoas quando já comigo falo tão pouco. Estou a ser só ser. Estou a viver como que numa anestesia constante, um estado de dormência física e mental. Vou dormir e sonhar que flutuo algures nesse mar, nesse turbulento e cálido mar.

quinta-feira, 28 de março de 2013


Passou uma semana. Acordo e pela primeira vez aceito que tu não vais estar ao meu lado. Ando para a frente e para trás no tempo e só faço pausa nos momentos em que te vejo aparecer. Recordo o teu franzir de testa enquanto inalavas cansado o fumo do meu cigarro. Às vezes doía-me conhecer-te tão bem. Reconhecer os teus porquês. Saber o motivo de um suspiro, de um encolher de ombros e de um olhar tantas e tantas vezes distante, ausente, vazio. Eu sei que tentaste, acredita. Tentaste preencher esse coração desabitado, oco e frívolo e eu acreditei tanto e com tanta força. Gritavas baixinho o meu nome e eu fazia por lhe dar sentido. Somos tão bons a fechar os olhos e a criar realidades paralelas. Eu via tudo à acontecer e conseguia enganar-me uma e outra vez. Eu via a tua impaciência, a tua saturação e o teu medo, mas aprendi a representar. Muito antes de fechares a porta, já eu te havia visto fazê-lo mas isso não fez doer menos. Não tenho força para me levantar, vou voltar a dormir. Se decidires aparecer continuas a ter o teu lugar na cama. Não me destapes, tenho frio. 

terça-feira, 26 de março de 2013


Acordo nua e cada parte de mim sente o sabor gélido da tua ausência a queimar em mim. Tu não sabes dormir comigo, um dia talvez te ensine. Transformas os lençóis numa massa encapelada como o mar. Abro os olhos ainda na vertigem da noite passada. Imagino quanto tempo poderei viver nesta onda alucinogénia, quanto tempo pode este corpo aguentar ser dominado pelo teu. Lavo a cara, preciso de sentir a água nos meus lábios ainda doridos, ainda a ferver. Vejo refletidas no espelho as marcas da nossa tempestade. Formam pequenos anéis cor de sangue entre os meus ombros, espalhadas pelo meu peito. Passo a minha mão entre elas e percebo que ainda não consegui arrefecer. Não satisfaço o desejo inquieto de ir procurar-te ainda dentro de mim. Prendo uma mão com a outra e percebo que tenho de voltar para a cama. Respiro-te através do sufoco da almofada e consigo sentir o sabor aquoso e seco da tua saliva. Desde que habitas este quarto, percebi que o mundo pode mesmo ser onde nós quisermos e que o meu é este. Tenho-te a ti que és como o mar e tenho o céu que vejo da janela. Deixo que sejas a minha fonte exclusiva de alimento e que me vás nutrindo. Não vejo os dias passar, mas vou contando as noites. Tu não sabes mas eu tenho medo de te perder. Quando finalmente me adormeces, com o cansaço descontrolado que me deixas no sono, a minha cabeça ainda te obriga a mergulhar nos meus sonhos. Não me lembro do ultimo segundo em que não estiveste comigo, mesmo quando não estas. Não sei quando me deixei embriagar neste teu jogo, só sei que quis esquecer as regras e agora estou perdida. Volta para a cama, tenho medo de te perder.

segunda-feira, 25 de março de 2013


Imagino-te como imagino o mar. Imenso, profundo e de alguma maneira inalcançável. Os dias passam e as noites pesam. Tu não sabes mas tenho percorrido cada centímetro da tua pele cor de leite, cor de neve. Passo as duas mãos pelos lados do teu pescoço e sinto o arrepio que nelas deixas. Tu ainda não sabes, mas esse arrepio entra em mim e também ele me percorre. Carrega na sua brevidade uma força bruta que penetra nas minhas veias, tenta rasgar-me a pele e acaba entre as minhas pernas como uma onda de calor húmido. Gosto dos teus pés descalços e do recorte das tuas unhas. Sei que gostas de sentir o meu cabelo a escorrer levemente nas tuas costas e sei que cresces enquanto isso acontece. Eu preciso de ti e disso tu também ainda não sabes. Aprendi a decorar cada silaba que vejo nascer da tua língua. E quando me deite ouço-te sussurrar cada uma delas no meu ouvido. Já sei que os teus olhos mudam quando me queres mais perto e que a sua cor se esbate quando me ausento. Fecho os olhos e estou de volta a navegar em ti. Entre o teu cabelo cor de mel e os teus pés nus, perco a noção do tempo e do espaço. Contigo eu não sou eu. Contigo sou um ser puramente espiritual que paira sobre este mundo, tendo-te como única referência, como único porto. Não sei se já o disse, mas eu preciso de ti. A tua presença é um transporte para uma realidade paralela, onde o céu, o mar e as estrelas se fundem numa só tela. Sinto-me transbordar. Sinto que dentro de mim algo brota, algo jorra e algo grita inconsolável o teu nome. Hoje fecho os olhos, mergulho nesta cama e tu não estás. Hoje não há palavras tuas nos meus ouvidos, não há a luz que só tu emites e algo em mim morre. Hoje o mar é imensamente negro, profundo e caliginoso. Eu sei que já disse, mas eu preciso de ti.