quarta-feira, 10 de abril de 2013


A primavera chegou. Não lhe sinto o cheiro, não toco nas primeiras flores nem consigo ver os novos tons do céu, mas eu sei. Hoje levantei-me e o quarto estava quente, um quente bom que não sufoca nem magoa, só paira. Senti o sol a bater forte na janela e quando dei por mim tinha o corpo colado no vidro. Que sensação boa, quase como um raio de humanidade a percorrer-me. Por míseros segundos tive vontade de ver o mundo, bater pé pela cidade, ver pessoas a sorrir, a chorar, a correr, a viver. Tão veloz como apareceu, esse sentimento desapareceu. Bebi um copo de água de um só trago e soube-me bem mesmo sabendo que guardava o pó de tantos dias passados. Voltei para a cama e reparei que os lençóis brancos estavam a ficar amarelecidos, desgastados, talvez tristes. Na tua almofada agora minha, pequenas gotas de sangue dormiam. Como símbolo de término, de batalha perdida, mas mais do que tudo de ausência magoada. Só existe um momento em que este corpo e esta alma conseguem descansar. Os dois primeiros segundos em que acordo. Esses segundos em que a nossa mente esta vazia, sem memórias, sem dor, sem amor. Ai, pudessem eles durar o resto da minha vida. 

Sem comentários: