A primavera chegou. Não lhe sinto o cheiro, não toco nas
primeiras flores nem consigo ver os novos tons do céu, mas eu sei. Hoje levantei-me
e o quarto estava quente, um quente bom que não sufoca nem magoa, só paira.
Senti o sol a bater forte na janela e quando dei por mim tinha o corpo colado
no vidro. Que sensação boa, quase como um raio de humanidade a percorrer-me. Por
míseros segundos tive vontade de ver o mundo, bater pé pela cidade, ver pessoas a
sorrir, a chorar, a correr, a viver. Tão veloz como apareceu, esse sentimento
desapareceu. Bebi um copo de água de um só trago e soube-me bem mesmo sabendo
que guardava o pó de tantos dias passados. Voltei para a cama e reparei que os
lençóis brancos estavam a ficar amarelecidos, desgastados, talvez tristes. Na tua
almofada agora minha, pequenas gotas de sangue dormiam. Como símbolo de término,
de batalha perdida, mas mais do que tudo de ausência magoada. Só existe um
momento em que este corpo e esta alma conseguem descansar. Os dois primeiros
segundos em que acordo. Esses segundos em que a nossa mente esta vazia, sem
memórias, sem dor, sem amor. Ai, pudessem eles durar o resto da minha vida.
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