Hoje acordei com sede. Sede do mundo, da vida, das pessoas e
de tudo o que fui. Tinha tanta sede que achei que nela poderia sufocar. Não foi
suficiente para rasgar as amarras da cama. Talvez seja um sinal de desapego,
talvez ainda recupere a tempo de ser mais do que aquilo que tu fizeste de mim. Talvez
volte a respirar o meu ar e agarre com as duas mãos a minha própria vida. Enquanto
isso não acontece afundo-me mais uma vez. Penso que talvez devesse lavar os lençóis,
mas fico-me pela ideia de o fazer. A chuva continua e hoje passou o dia a bater
com força na janela. Imaginei essas pequenas pedras a saltarem em queda-livre
do céu, molhadas e frias. Imaginei tocar-lhes e o quão revigorante isso poderia
ser. Quando sair desta cama talvez receei o toque por já o desconhecer. Às vezes
aperto cada um dos meus membros, só para saber que ainda sou um corpo. Crio um nível
de dor de forma a que me permita estar certa de que ainda existo. Hoje sei que
é Domingo. Não ouvi a mulher do mini mercado nas suas cantorias, só daí pude
ter essa informação. A campainha voltou a tocar e chegou ao ponto que a consigo
ignorar de tal forma que tenho o poder de a silenciar na minha cabeça. Sinto que
todos os meus mecanismos de concha se estão a fortalecer e que estou mesmo
refugiada do mundo e de toda e qualquer forma de vida. Agora vou voltar ao
casulo, estou a precisar de sonhar.
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