quinta-feira, 28 de março de 2013


Passou uma semana. Acordo e pela primeira vez aceito que tu não vais estar ao meu lado. Ando para a frente e para trás no tempo e só faço pausa nos momentos em que te vejo aparecer. Recordo o teu franzir de testa enquanto inalavas cansado o fumo do meu cigarro. Às vezes doía-me conhecer-te tão bem. Reconhecer os teus porquês. Saber o motivo de um suspiro, de um encolher de ombros e de um olhar tantas e tantas vezes distante, ausente, vazio. Eu sei que tentaste, acredita. Tentaste preencher esse coração desabitado, oco e frívolo e eu acreditei tanto e com tanta força. Gritavas baixinho o meu nome e eu fazia por lhe dar sentido. Somos tão bons a fechar os olhos e a criar realidades paralelas. Eu via tudo à acontecer e conseguia enganar-me uma e outra vez. Eu via a tua impaciência, a tua saturação e o teu medo, mas aprendi a representar. Muito antes de fechares a porta, já eu te havia visto fazê-lo mas isso não fez doer menos. Não tenho força para me levantar, vou voltar a dormir. Se decidires aparecer continuas a ter o teu lugar na cama. Não me destapes, tenho frio. 

terça-feira, 26 de março de 2013


Acordo nua e cada parte de mim sente o sabor gélido da tua ausência a queimar em mim. Tu não sabes dormir comigo, um dia talvez te ensine. Transformas os lençóis numa massa encapelada como o mar. Abro os olhos ainda na vertigem da noite passada. Imagino quanto tempo poderei viver nesta onda alucinogénia, quanto tempo pode este corpo aguentar ser dominado pelo teu. Lavo a cara, preciso de sentir a água nos meus lábios ainda doridos, ainda a ferver. Vejo refletidas no espelho as marcas da nossa tempestade. Formam pequenos anéis cor de sangue entre os meus ombros, espalhadas pelo meu peito. Passo a minha mão entre elas e percebo que ainda não consegui arrefecer. Não satisfaço o desejo inquieto de ir procurar-te ainda dentro de mim. Prendo uma mão com a outra e percebo que tenho de voltar para a cama. Respiro-te através do sufoco da almofada e consigo sentir o sabor aquoso e seco da tua saliva. Desde que habitas este quarto, percebi que o mundo pode mesmo ser onde nós quisermos e que o meu é este. Tenho-te a ti que és como o mar e tenho o céu que vejo da janela. Deixo que sejas a minha fonte exclusiva de alimento e que me vás nutrindo. Não vejo os dias passar, mas vou contando as noites. Tu não sabes mas eu tenho medo de te perder. Quando finalmente me adormeces, com o cansaço descontrolado que me deixas no sono, a minha cabeça ainda te obriga a mergulhar nos meus sonhos. Não me lembro do ultimo segundo em que não estiveste comigo, mesmo quando não estas. Não sei quando me deixei embriagar neste teu jogo, só sei que quis esquecer as regras e agora estou perdida. Volta para a cama, tenho medo de te perder.

segunda-feira, 25 de março de 2013


Imagino-te como imagino o mar. Imenso, profundo e de alguma maneira inalcançável. Os dias passam e as noites pesam. Tu não sabes mas tenho percorrido cada centímetro da tua pele cor de leite, cor de neve. Passo as duas mãos pelos lados do teu pescoço e sinto o arrepio que nelas deixas. Tu ainda não sabes, mas esse arrepio entra em mim e também ele me percorre. Carrega na sua brevidade uma força bruta que penetra nas minhas veias, tenta rasgar-me a pele e acaba entre as minhas pernas como uma onda de calor húmido. Gosto dos teus pés descalços e do recorte das tuas unhas. Sei que gostas de sentir o meu cabelo a escorrer levemente nas tuas costas e sei que cresces enquanto isso acontece. Eu preciso de ti e disso tu também ainda não sabes. Aprendi a decorar cada silaba que vejo nascer da tua língua. E quando me deite ouço-te sussurrar cada uma delas no meu ouvido. Já sei que os teus olhos mudam quando me queres mais perto e que a sua cor se esbate quando me ausento. Fecho os olhos e estou de volta a navegar em ti. Entre o teu cabelo cor de mel e os teus pés nus, perco a noção do tempo e do espaço. Contigo eu não sou eu. Contigo sou um ser puramente espiritual que paira sobre este mundo, tendo-te como única referência, como único porto. Não sei se já o disse, mas eu preciso de ti. A tua presença é um transporte para uma realidade paralela, onde o céu, o mar e as estrelas se fundem numa só tela. Sinto-me transbordar. Sinto que dentro de mim algo brota, algo jorra e algo grita inconsolável o teu nome. Hoje fecho os olhos, mergulho nesta cama e tu não estás. Hoje não há palavras tuas nos meus ouvidos, não há a luz que só tu emites e algo em mim morre. Hoje o mar é imensamente negro, profundo e caliginoso. Eu sei que já disse, mas eu preciso de ti.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O tempo modifica tudo. As pessoas, os sentimentos, os valores, os anseios e tantas vezes as vontades. Mas para quem diz que tem o poder de nos fazer esquecer, eu discordo. Nós não esquecemos nada, o que acontece é que aprendemos a guardar as coisas nos seus devidos lugares. Não acontece quando queremos e precisamos, é verdade, mas um dia acordamos e por e simplesmente nos sentimos mais leves. Acordamos e peso do passado desapareceu. E é nesse dia e apenas nesse, que temos todas as forças para seguir em frente e viver tudo o que tinhamos vindo a adiar. As emoções que haviamos contido, podem correr livremente e isso pode saber incrivelmente bem. E nesse dia voltamos a ser bem-vindos á nossa vida, um novo capítulo começa.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

E junto com ele, acorrentado com ele, tudo foi. A força, a vontade, a razão, o meu ser. Agora sou o fruto dos dias que correm e aos quais me entrego. Sem ele, sou apenas ar. O meu corpo não responde, a minha cabeça não me ordena. Sou como o tempo e viajo conforme os seus desejos.
Sem ele não sei sentir, não sei o que sou ou o que faço aqui. Ele levou o Verão, a luz e o meu coração. Quero ir atrás Dele, correr, fugir, prendê-lo. Mas não consigo, não posso, não devo.
Faz frio, eu sei que sim, apenas não sinto. Não sei sentir, sem ti.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ela sentia-se invadida pelo amor dele. Sentia-se penetrada brutalmente, consumida em excesso por ele e por esse sentimento que se tornava absurdo, de tão desmedido. Lembrava-se de um dia ter dito ou pensado, que no amor não existiam limites, barreiras ou cargas máximas. Mas tinha-se esquecido que o amor nem sempre vem em dose dupla como era suposto. Tinha-se também esquecido, que se pode estar perdido de amores por alguém que não se reconhece nesse mesmo sentimento.
Enquando se deixava envolver e arrastar por estes pensamentos, olhava para ele com toda a ternura que tinha em si e tentava não rir dos seus malabarismos para a tentar alcançar. Os olhos dele tinham paixão, tinham tudo o que ela sempre quis ter e foi aí que a sua cabeça se acalmou. Respirou fundo, tomou-lhe os braços e deixou-se ficar num abraço sem tempo nem hora. 'Talvez esse teu amor chegue para nós os dois.'

quarta-feira, 2 de março de 2011

O acordar sabia-lhe a um pesado vazio. Eram evidentes as marcas que haviam ficado da noite anterior. Levou horas a abrir os olhos e quando o fez, percebeu que tinha renascido para apenas mais um dia sem sentido. Precisava de tentar esquecer tudo o que sabia ter vivido horas antes, porque o que não tinha em memória, sentia em dobro de dor. A água fervia-lhe o corpo e só isso lhe conseguia aliviar o peso do pecado que sabia haver em si. Era como se o corpo não lhe pertence-se ou estivesse envolto numa camada de tudo o que ela não queria ser. A janela mostrava-lhe um dia cinzento e sentiu que sair de casa só a faria confundir-se com o céu. Voltou para a cama e fechou os olhos com toda a força que tinha... com a pouca força que tinha.